Distinções

Professora Doutora Fernanda Rodrigues distinguida com Medalha de Honra da Segurança Social
 
É com muita satisfação que a APSS divulga que a Professora Doutora Fernanda Rodrigues, atual membro dos órgão sociais da APSS, foi agraciada com a Medalha de Honra da Segurança Social pelo «(...) trabalho desenvolvido ao longo da sua carreira como consultora nacional e internacional, docente e investigadora, como dirigente em diversos organismos da Segurança Social (...)», conforme respectivo despacho nº 6231/2016 
 
 
Partilhamos ainda as palavras de agradecimento da Professora Doutora Fernanda Rodrigues perante esta distinção.
 
«Antes de mais gostaria de manifestar o meu agradecimento pela distinção atribuída – no caso a Medalha de Honra da Segurança Social 2016. Em entrevista recente com Emiliano Fitipaldi, a propósito da sua última publicação intitulada "Avareza", o jornalista e autor defende que só os culpados agradecem. E este foi para mim o mote para pensar de que seria culpada para agradecer e referenciei três principais razões de culpa: i) ser Assistente Social; ii) ter feito toda a minha carreira na área da Assistência Social e, iii) ser uma utópica realista.
Em mais de quatro décadas de atividade tive a oportunidade de atravessar colaborativamente um tempo de inúmeras e significativas transições. Entre 1970 e 1974 vivendo um tempo de restrições no campo social, mas também um tempo que fermentava mudanças.
O período posterior foi recheado de aquisições no campo da Assistência Social. Antes de mais o seu reconhecimento como parte quase igual ao setor previdencial na composição da proteção social. Ainda de ressaltar o relevo que ganhou o conhecimento e a intervenção não só face aos pobres mas no problema da pobreza. A janela de oportunidades que constituiu a integração na União Europeia (e que recentemente tem sido pouco mais ou pouco menos que um postigo) chegou a trazer para o campo da luta contra a pobreza, conceções e práticas que enfatizaram designadamente a vantagem de conhecer para agir, isto é, só porque se trata de Política social, não vale tudo, só vale o que se comprova como adequado. Apesar disso, recordo a prova pública do meu concurso para assessora, durante a qual esforçadamente o júri argumentou a irrelevância do meu trabalho académico para o bom desempenho na Segurança Social. Recordo que desenvolvia nesse momento um trabalho (que finalizei, apesar desta nota de desânimo) sobre a Assistência Social e as Políticas Sociais em Portugal...Este foi também um período de instituição de direitos no campo da Assistência Social, direitos esses que sempre viveram sobressaltados e sobre os quais se veio a polemizar o seu grau de garantia e perenidade.
Finalmente, e em coincidência com a minha saída de funções, passou-se a um período de visível demolição do património construído nesta área. Tratou-se, a meu ver e antes de mais de restringir a ideia de proteção social e depois também dos patamares das prestações sociais. A sua ainda recente consolidação é abalada e com ela, assiste-se à devastação da vida de muitos milhares de portugueses e portuguesas. Mas a devastação foi mais ampla, pois visou abalar o crédito de todos e todas nos serviços públicos. Que tempo difícil foi este em que paradoxalmente se sustenta a ideia de que o empobrecimento pode servir propósitos de desenvolvimento e progresso! É para mim muito grato (embora aqui menos culpada pois já não estou nos serviços apesar de estar ativa), dizia eu, que me é muito grato ter este reconhecimento num período novo, um período de correção da trajetória recente e de revigoramento da matriz social democrata da proteção social. Sabemos das múltiplas dificuldades a superar, designadamente porque os cortes estão hoje mais facilitados (até ideologicamente) do que as devidas reposições e melhoramentos das prestações...mas não é impossível. “A única jornada impossível é aquela a que nunca se dá início”.
A segunda culpa: ser Assistentes Social. Sim, integro uma categoria profissional que antecedeu e pugnou pelas políticas públicas, cresceu e modificou-se com o estado social e passou a viver enquanto profissional e como cidadãos (mais cidadãs...) a precarização das suas condições de trabalho, o atropelo aos seus contributos profissionais, o amálgama das suas funções e a (in)tolerância relativamente à desregulação da sua profissão. Não se confunda o episódico silêncio destes profissionais com o seu eventual desinteresse face ás dinâmicas em curso. Leia-se antes o seu desânimo que tempos bem recentes lhes trouxeram. Passaram a ser profissionais de emergência social que não tem futuro mas só presente, que é atacado por quase todos pela falta/inadequação das respostas necessárias. A todas e todos o meu agradecimento designadamente aos que têm escolhido o lado dos mais vulneráveis, com quem pugnam por uma cidadania inclusiva.
Uma última culpa: ter escolhido a mal afamada utopia como caminho cívico-profissional e elucidação. Trata-se de uma utopia que assenta na necessidade e desta faz possibilidade. Em cada momento pensar o impensável é um exercício crítico que anima outras mudanças e não só as que estão à vista. É também um exercício coletivo, (como gosto) que contraia o conformismo (que é só igual ao que existe). A utopia implica ruturas! Mas quem entra neste caminho? Seguramente todos as/os que entendem como intoleráveis tantas condições do nosso tempo e de entre estas, também a naturalização da injustiça que é como quem diz da desigualdade. Creio ainda que as dinâmicas sociais estão órfãs de um ambiente político. Viveu-se a destruição sem a redenção, o que matou a esperança. Reconheço e agradeço o momento desta celebração: ser utópica é ter consciência antecipatória. Somos chamadas a viver a possibilidade da impossibilidade contra a banalização do horror social. Hoje fico, pois, grata e co-culpada pelo revigoramento da Assistência Social, pelo compromisso ético-político das/dos Assistentes Sociais e pela utopia que vive para um progresso incerto mas necessário.
 
Fernanda Rodrigues, Maio de 2016»

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